mudança de ventos
de prosa, arte e vida


Sábado, Abril 25, 2009





25 de abril de 1974


A noite que há tanto se estendia, súbito, à beira Tejo, se foi dissipando. Há tanto emudecidas, as gentes se surpreendiam cantando. Primeiro manso, e então, a plenos pulmões. E da terra e das mãos de cada um, brotaram os cravos. Rubros cravos. Em toda a parte floriu a terra morta. Em toda a parte fez-se nova e eterna a primavera. E a Liberdade abriu seus braços sobre a terra, sobre o Tejo. E, por toda a Terra, fez ouvir a sua voz. E de longe, sobre o mar, nos acenava nos dizendo: é possível. E de longe, sobre o mar, todos nós, também cantávamos, também sorríamos. E sonhávamos com o dia em que os cravos — todos rubros — finalmente brotariam entre nós.



Márcia Maia


para todos nós, portugueses e brasileiros, que vivemos aquele dia, na certeza de que os cravos florirão sempre e que a noite e o medo, jamais retornarão. a vocês, meus amigos mais-que-queridos, do outro lado do mar, meu maior beijo. e meu carinho. sempre.


MM, 13:53#

Ou aqui:




Sábado, Abril 04, 2009


A Carta


Agora que é de tarde e já é tarde para arrependimentos, pergunto-me em silêncio: quanto de mim se foi naquela tarde? Ônibus lotado, seis e meia, quase noite. Sem lua.
Onde estaria se tivesse cedido, largado casa e filhos e a mãe já velha, doente?
A mãe disse pra eu ir, é verdade. Que amor não se encontra de novo se deixa-se partir. Que amor corre sempre pra frente, como rio. E perde-se na vida.
Mas fiquei.
E agora, esta carta. Tanto tempo depois.
Caminho até a praça de onde partem os ônibus. (Pra mim, eles sempre partiram.) E dali ao cais, beira de mar bravio.
Novamente é tarde, seis e meia, quase noite. Sem lua. Azul denso. Maresia.
E ao surgir a primeira estrela, pequenina e minha, como tu dizias, deixo que a carta caia entre as ondas nas águas da noite-mar.
Sem abri-la.



Márcia Maia


MM, 01:03#

Ou aqui:


meus livros
falar comigo?
para ler
meus outros blogs
estou também por aqui
blogs de cá
blogs de lá
baú
este blog recebeu
o prêmio dardos
diga não à violência: