: e embora tenha o dia, finalmente, amanhecido azul, uma nuvem se lhe persistia, pesada e cinza, sob as pálpebras, por trás dos olhos, deixando janeiro escuro e frio, com cara de junho, mesmo havendo retornado, lá fora, o verão.
Quando o telefone tocou, pensei que fosse novamente a voz querendo saber se era da casa de Aparício. Não era. Era ele. Desculpe, mas não aguentei a saudade, disse. Precisava, ao menos, ouvir sua voz. E eu muda, feito uma porta, do outro lado.
Fazia pouco mais de um mês que havíamos combinado nos separar. Depois de dois longos anos de idas e vindas. De tardes tórridas e noites solitárias. De encantamento e riso. De desencontro e medo. Tinha sido uma decisão pensada e doída, por trás das faces calmas, e do sorriso quase falso, esbanjando sensatez. Sem dramas. Sem ardentes despedidas. Sem lágrimas.
Eu retomara meu dia-a-dia, tentando reorganizar a vida de uma nova perspectiva. Ou melhor, de uma perspectiva anterior ao conhecê-lo. No início tinha sido duro. Muito duro. As lágrimas não derramadas à hora da despedida, jorraram em silêncio, nas duas ou três primeiras noites. Depois, foram secando paulatinamente. Afinal, fora melhor se separar assim, de comum acordo, numa boa, antes que vida nos roubasse a alegria, o bem-querer. Estava bem, agora. Alguma saudade, muita lembrança, uma sensação gostosa de amor vivido.
Alô, você ainda está aí? dizia a voz no telefone. Estou sim, respondi, a voz trêmula. Tem sido difícil, muito difícil, ficar sem lhe ver, sem lhe falar. Não pensei que me fosse doer tanto, acrescentou, deixando-me mais emudecida ainda. O telefone tremia em minha mão, meus olhos se enchiam de água, o coração batia agalopado. Eu sei, também não tem sido fácil pra mim, finalmente consegui dizer. E rimos, os dois, sem ter porquê. Talvez para evitar o clima de melodrama. Você viaja quando? perguntei. Daqui a umas duas semanas. Sem data certa, ainda. Aviso quando souber. Certo, disse eu, a voz novamente firme. Olha, sei que a gente tinha combinado não se ver, mas sinto muito a sua falta. Quer voltar atrás?
Não, pensei, eu não queria. Não naquele momento. Não daquele jeito sobressaltado e antigo. Não agora quando começava a me reencontrar.
Não sei, respondi. Não sei. É muito cedo pra pensar nisso. Desculpe. E um silêncio de séculos se fez do outro lado da linha. Eu sei, você tem razão, me deixei levar pela saudade. Deixe-me dizer só mais uma coisa, pediu. Eu te amo. Te amo muito, acredite. Eu sei. Acredito. Também amo muito você, falei. E desligamos.
Na tarde, subitamente suspensa e azul, fez-se um silêncio de picos nevados. Rompido, apenas, pela voz de Edu cantando, na vitrola, os versos de Vinícius: " e essa beleza do amor, que foi tão nosso e me deixa tão só, eu não quero perder, não quero enganar, não devo trair, porque tu foste pra mim, meu amor, como um dia de sol."