mudança de ventos
de prosa, arte e vida


Sábado, Dezembro 27, 2008



Clarice


Toda uma vida e apenas três palavras. Dissera acácia, ao adolescer e apaixonar-se por um Artur que tantos criam imaginário. E então, antúrio, ao ser por ele brutalmente violada. Anos depois, disse nenúfar. Três dias antes de afogar-se onde nunca houvera água.



Márcia Maia


MM, 08:46#

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Domingo, Dezembro 21, 2008


Uma noite feliz


Sentada à mesa da cozinha, ela pensava. Precisava preparar o peru para a ceia. Estariam todos à sua espera ( e a dele, o peru ), logo mais. Mas havia o cansaço. E uma imensa vontade de ficar. Abriu a garrafa de espumante italiano, há meses na geladeira. Bebeu devagar. Tomou um banho. E adormeceu na rede da varanda. Só e feliz. Na noite de natal.



Márcia Maia


Para todos vocês, meus amigos queridos, estejam onde estiverem, o melhor dos natais. E meu beijo.


MM, 21:09#

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Quinta-feira, Dezembro 11, 2008


tina modotti



entrelinha


as malhas do tempo se emaranham e se confundem. da memória nem um ínfimo por um átimo se retém. tudo é névoa travestida de vazio. vãs palavras que de ausência desafirmam-se. maré que em círculo represada se estagna. e enquanto a mente decompõe-se mais e mais a cada dia, o corpo insiste em manter-se quase hígido. o mens sana in corporis sano por inteiro desagrega-se. e o que vê-se além da dor de quem assiste é um invólucro esvaziado um corpo de luz desabitado. a mãe faz oitenta anos. e de si nada resta que uma sombra. um espectro do esplendor que um dia foi. ressequida flor que em avessa primavera à morte nega-se. e o amor.



Márcia Maia


MM, 08:07#

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Sexta-feira, Dezembro 05, 2008


koldo badillo©



Trastevere


Quando a barra pesa, e aqui, quase sempre pesa, sonho. Faço de conta que os barracos coloridos não ficam na favela. Que a bicicleta na porta não é do dono do pedaço, de quem não se pode dizer o nome. E que a feira, cheia de verdura podre e carne clandestina de cavalo e cachorro, vende flores e é chique. Como em um filme que vi na tevê. Uma história de uma princesa que quer ser moça comum. E se perde perto da tal feira. Com um jornalista. Depois, passeia, na garupa da lambreta dele, por uma cidade linda. Roma, o nome da cidade.
Tem um lugar, lá no filme, que parece aqui.(Menos nos tiros e na pobreza.) Umas casas meio-velhas, coloridas. Roupa estendida no varal. Flor na janela. Cachorro latindo. Gente reclamando, falando alto, rindo, se agarrando no meio da rua. Um tal de Trastevere, eu acho. Não sei se é assim que se escreve. Pois é com esse tal de Trastevere que sonho em dias assim. Quando o terror se espalha. E a gente nem pode respirar, com medo de fazer barulho. Porque, se ele ou os amigos dele escutarem, podem se zangar e atirar pra matar. Ou botar a gente pra fora daqui. Para sempre.



Márcia Maia


MM, 22:59#

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