mudança de ventos
de prosa, arte e vida


Sábado, Novembro 29, 2008


Cicatriz


; e por mais que refizessem gestos e caminhos e todas as palavras reinventassem, um ponto opaco persistia na imensidão daquele azul. A olhos leigos, invisível. Aos dela, infelizmente, não.



Márcia Maia


MM, 04:14#

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Sexta-feira, Novembro 21, 2008


Longe do Paraíso


Vagando à noite, sob a luz esverdeada dos letreiros de néon, sentia frio. Chovera. Nas esquinas empoçadas, nos vidros das vitrines mal iluminadas, se via refletida e não se reconhecia. Uma saudade de árvores lhe vazava o peito. Pensou em se jogar do viaduto. Demasiado urbano. Pensou em se jogar no rio. Mas não era rio aquela água escura e fétida cheirando a esgoto e desespero. Pensou em tantas saídas. Mas se escusou de entrar naquele teatro, que se dizia mágico, e se oferecia aos raros e aos loucos. Não, não era a hora de mostrar-se a si inteira e nua. Não agora. Não ainda.



Márcia Maia


MM, 20:39#

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Sábado, Novembro 15, 2008


erótica


por sob as vestes escuras por sob os olhos velados pulsa a ânsia de te me tomar-te e à tua revelia alimenta o fogo que te-me consome onde te-me ardes onde tanto me desejas e enredado em mistérios e segredos todos teus te-me tolhes te-me afastas te-me negas ad infinitum per omnia saecula saeculorum  sem amém



Márcia Maia


MM, 06:14#

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Terça-feira, Novembro 04, 2008


Márcia Maia©



Maremoto


Naqueles dias, deu de achar que o mar avançava. Mais e mais. Não que houvesse um motivo real para isso. Apenas acontecia. E por vezes, sentia como se não pudesse respirar. Como se os pulmões se enchessem de líquido. Salgado e amargo. Grosso. Mas, não fora sempre assim.
Vivera desde sempre, naquela ilha. Desde antes de propriamente nascer. Toda a sua família ali nascia e ali morria. Ano após ano. A vida seguia seu rumo. Previsível. Plácida. Quase feliz.
Até aquele dia. De chuva e mar revolto. Quando ele apareceu. Um ano atrás. E nada fora igual desde então. Nem ao menos era belo. Tinha uns olhos de noite e frio. De mar profundo. Cavernas. E mãos. Jamais esqueceria aquelas mãos.
Pouco ficou. Partiu como chegara. Sem palavras. Pleno de olhares. Na hora misteriosa que divide o amanhecer da madrugada. Maré alta. Mar calmo de partida. Corpo doendo de saudade. Do amor. De outras mãos. As suas.
Desde então, o mar avança a cada dia. Nos seus olhos de espera. Olhos dela, que ficou. Ninguém notou a mudança. Ninguém percebeu o azul mais pálido no céu e um quê de verde-cinza se espalhando mar afora. Nem a fase minguante da areia. Na praia. Ninguém. Exceto a avó. Velha como a mais alta palmeira. Que a viu perder-se meio às ondas. Um instante antes de o mar invadir a ilha. Cobri-la. Um segundo antes de tudo tornar-se passado.



Márcia Maia


MM, 07:38#

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