Quinta-feira, Julho 17, 2008
De olhos bem abertos
Sofria de uma doença rara. A Síndrome do Inverso-Espelho. Qualquer mínimo sorriso, palavra, gesto, fazia-o acreditar que era amado. Sem o ser. Por outro lado, quase nunca enxergava quem de fato o queria. Vivia entre o inferno e o paraíso. Sem meio-termo possível. Um humano pêndulo afetivo. Indo e vindo. Vindo e indo. Um dia acordou curado. Desabou. Não conseguiu olhar-se no espelho. À mesa, o rancor surdo da família reunida brilhava como o sol do meio-dia. Na rua, nenhum sorriso. E a voz dela, ao telefone, dura como pedra. Nada mudara. E nada fazia sentido. Então vazou os olhos e os ouvidos. E viveu feliz. Para sempre.
Márcia Maia
MM, 05:14#
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