Sábado, Junho 21, 2008
adágio para violoncelo sapos grilos e ausência de voz
esse silêncio interior essa afasia essa coisa inexplicada interposta entre as sinapses impedindo o pensamento de fluir como se chama? essa mudez que se me estende até as pontas dos dedos e mais além e que atropela e inviabiliza o poema a que se deve? como se atreve? e esse frio que penetra pelas frestas da janela e o coaxar desses sapos em jardim inexistente e esses grilos e esses pássaros noturnos a mentir que inda virão de onde vêm? meio ao asfalto da cidade o que serão? mentiras de estrelas? sereias perdidas descrentes de mar em noite sem lua? e o som do violoncelo que me envolve e envolve a sala e envolve a noite e envolve a cama e envolve a vida será música ou só ausência ou só saudade ou só descrença ou nada mais que o nada mais que resta numa noite de solstício entre a insônia e o simples ato de entregar-se e esquecer-se e dormir?
Márcia Maia
MM, 21:53#
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Sexta-feira, Junho 13, 2008
Ewa Brzozowska©
Canção de não-cantar
Eram assim, ia dizer como unha e carne, mas lembrou que unha e carne não falam, como voz e língua, como frevo e passo, como pôr-de-sol e alvoroço de passarinhos em fim de tarde. Aliás, era exatamente ao final da tarde que invariavelmente enveredavam em conversas e em risos sem fim. Mais ainda em janeiro. Culpa do sol, do ano recém-nascido, dos primeiros acordes dos blocos ensaiando o vindouro carnaval, culpa do aniversário. E tarde a tarde, de janeiro a janeiro, reinventavam a vida, redescobriam o mundo e eram felizes. Mas esgarçou-se o tempo entre os janeiros, e as tardes paulatinamente emudeceram, como se todos os pássaros emigrassem. E agora que era novamente janeiro e aniversário, telefone na mão, antes que do outro lado ele atendessem, ela subitamente percebeu que se lhe haviam secado todas as palavras. E desligou. Apesar de ser janeiro. Apesar de ser aniversário.
Márcia Maia
MM, 00:00#
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