O dia inteiro de febre:39,5°C. Tomou remédio, minha mãe? pergunta a filha. E ela, a mãe, mais morta que viva, com cada mínimo ossinho doendo, responde que ainda não, que está deixando cozinhar os bichos.
- Cozinhar quem?!
- Os bichos.
- Está delirando, minha mãe?
- Não, meu bem. Explico. Sempre digo às mães dos meus pacientes que a febre é uma forma de o corpo matar os germes, os bichos, como a gente faz quando ferve o leite. E que dando o remédio muito cedo, antes de 38°C, não se deixa o corpo cozinhar os bichos e se prolonga a doença.
Só você mesmo, minha mãe! Com 39,5°C os bichos já cozinharam bastante: trate de tomar o remédio!, retruca a filha, comprimido de Dipirona numa mão, copo d'água na outra.
Bem mais tarde, febre de volta, o corpo inteiro doendo, toca o telefone:
- Ei, que é que você tem? Onde já se viu médico adoecer?
A voz amiga e distante a faz rir. E pelos próximos quinze minutos, a conforta.
- Trate de melhorar, ouviu? Ligo de novo amanhã. Se cuide!
E desliga com um beijo. Pode ser ilusão, mas a dor melhora um pouco. Um pouquito-pouquitito de nada, mas melhora. Afinal, carinho não mata os bichos, mas faz um bem...
O sonho, tinha-o desde menina. Faltava-lhe a força para carregar a fantasia. Cultivou-a com calma, ao longo dos anos em que se fez mulher. Adulta e livre. E naquele carnaval, surgiu vitoriosa, quebrando a tradição. Coração no ritmo dos chocalhos. Baque-virado. Sob o céu de Pernambuco. Riso nos olhos. Lança e coragem, nas mãos.
Márcia Maia
*O maracatu rural, ou maracatu de baque-virado, surgiu na zona da mata, no século dezenove e desde então, só homens nele desfilavam. Maria José Marques foi a primeira mulher a desfilar, entre os caboclos-de-lança, quebrando a tradição. É uma das mais belas manifestações da cultura pernambucana.