Sofria de uma doença rara. A Síndrome do Inverso-Espelho. Qualquer mínimo sorriso, palavra, gesto, fazia-o acreditar que era amado. Sem o ser. Por outro lado, quase nunca enxergava quem de fato o queria. Vivia entre o inferno e o paraíso. Sem meio-termo possível. Um humano pêndulo afetivo. Indo e vindo. Vindo e indo. Um dia acordou curado. Desabou. Não conseguiu olhar-se no espelho. À mesa, o rancor surdo da família reunida brilhava como o sol do meio-dia. Na rua, nenhum sorriso. E a voz dela, ao telefone, dura como pedra. Nada mudara. E nada fazia sentido. Então vazou os olhos e os ouvidos. E viveu feliz. Para sempre.
adágio para violoncelo sapos grilos e ausência de voz
esse silêncio interior essa afasia essa coisa inexplicada interposta entre as sinapses impedindo o pensamento de fluir como se chama? essa mudez que se me estende até as pontas dos dedos e mais além e que atropela e inviabiliza o poema a que se deve? como se atreve? e esse frio que penetra pelas frestas da janela e o coaxar desses sapos em jardim inexistente e esses grilos e esses pássaros noturnos a mentir que inda virão de onde vêm? meio ao asfalto da cidade o que serão? mentiras de estrelas? sereias perdidas descrentes de mar em noite sem lua? e o som do violoncelo que me envolve e envolve a sala e envolve a noite e envolve a cama e envolve a vida será música ou só ausência ou só saudade ou só descrença ou nada mais que o nada mais que resta numa noite de solstício entre a insônia e o simples ato de entregar-se e esquecer-se e dormir?
Eram assim, ia dizer como unha e carne, mas lembrou que unha e carne não falam, como voz e língua, como frevo e passo, como pôr-de-sol e alvoroço de passarinhos em fim de tarde. Aliás, era exatamente ao final da tarde que invariavelmente enveredavam em conversas e em risos sem fim. Mais ainda em janeiro. Culpa do sol, do ano recém-nascido, dos primeiros acordes dos blocos ensaiando o vindouro carnaval, culpa do aniversário. E tarde a tarde, de janeiro a janeiro, reinventavam a vida, redescobriam o mundo e eram felizes. Mas esgarçou-se o tempo entre os janeiros, e as tardes paulatinamente emudeceram, como se todos os pássaros emigrassem. E agora que era novamente janeiro e aniversário, telefone na mão, antes que do outro lado ele atendessem, ela subitamente percebeu que se lhe haviam secado todas as palavras. E desligou. Apesar de ser janeiro. Apesar de ser aniversário.
A torneira sem água. O telefone mudo, mas com linha. Segunda-feira de contas a pagar. A Lua em Escorpião. A falta de paciência. O mal-estar. Uma canseira. E a sensação de estar overeacting. Superestimando. Fazendo drama, assim, em bom e claro português. Pra completar, Nana canta: ah, a solidão vai acabar comigo... Ah, saco! Bem-feito! Quem mandou se apaixonar?
Derrapou e caiu. Um segundo de desatenção, e estava no chão. A droga do tênis novo, todo cheio de riquififfis, salamaleques, amortecedores de gel e silicone, não era à prova de chuva. Menos ainda de calçada esburacada, folhas caídas e lodo. Deveria vir com um aviso: impróprio para uso no outono/inverno. E agora, a perna doía, a calça cheia de lama, por pouco não se rasgara, a mão arranhada, sangrando, a sombrinha quebrada. E três prestações da porra do tênis ainda por pagar. Oh, vida!
sem passeio. sem herói. sem piano sob a escada. sem sapato cor de caramelo. sem tarde. sem grená no jasmineiro. sem poesia. sem praça. você tão diverso tão longe. o que havia esgarçando-se. definitivamente. sem mim.
Enquanto o filho caçula, doente e pródigo, dorme, ela vela. Não fia ou tece. Espreita o céu azul da tarde, pela janela aberta, e lê o jornal do dia. Mesmo assim, em seu velho vestido de algodão bordado, deitada sobre a cama, distraída, daria um belo quadro de Vermeer. Não fossem de prata seus brincos.
O dia inteiro de febre:39,5°C. Tomou remédio, minha mãe? pergunta a filha. E ela, a mãe, mais morta que viva, com cada mínimo ossinho doendo, responde que ainda não, que está deixando cozinhar os bichos.
- Cozinhar quem?!
- Os bichos.
- Está delirando, minha mãe?
- Não, meu bem. Explico. Sempre digo às mães dos meus pacientes que a febre é uma forma de o corpo matar os germes, os bichos, como a gente faz quando ferve o leite. E que dando o remédio muito cedo, antes de 38°C, não se deixa o corpo cozinhar os bichos e se prolonga a doença.
Só você mesmo, minha mãe! Com 39,5°C os bichos já cozinharam bastante: trate de tomar o remédio!, retruca a filha, comprimido de Dipirona numa mão, copo d'água na outra.
Bem mais tarde, febre de volta, o corpo inteiro doendo, toca o telefone:
- Ei, que é que você tem? Onde já se viu médico adoecer?
A voz amiga e distante a faz rir. E pelos próximos quinze minutos, a conforta.
- Trate de melhorar, ouviu? Ligo de novo amanhã. Se cuide!
E desliga com um beijo. Pode ser ilusão, mas a dor melhora um pouco. Um pouquito-pouquitito de nada, mas melhora. Afinal, carinho não mata os bichos, mas faz um bem...
O sonho, tinha-o desde menina. Faltava-lhe a força para carregar a fantasia. Cultivou-a com calma, ao longo dos anos em que se fez mulher. Adulta e livre. E naquele carnaval, surgiu vitoriosa, quebrando a tradição. Coração no ritmo dos chocalhos. Baque-virado. Sob o céu de Pernambuco. Riso nos olhos. Lança e coragem, nas mãos.
Márcia Maia
*O maracatu rural, ou maracatu de baque-virado, surgiu na zona da mata, no século dezenove e desde então, só homens nele desfilavam. Maria José Marques foi a primeira mulher a desfilar, entre os caboclos-de-lança, quebrando a tradição. É uma das mais belas manifestações da cultura pernambucana.
Abriu a janela. Trigésimo andar. O vento varreu os papéis mesa afora. Ligou o som. Rock pesado. Sepultura. Exultou! Papéis, quadros, tudo voava no escritório mais impessoal e caro da cidade. Próprio à sua posição de alto executivo. Maduro e rico. Dançou até a exaustão. E adormeceu. Com a mesma sensação que tinha na infância. Quando roubava fruta do quintal do vizinho. E beijava, escondido, a filha do jardineiro. Mas isso fora há tanto tempo, que já não lembrava mais.
Acordou com uma sensação aguda de vazio. Uma solidão súbita invadira a casa, possivelmente entre as duas e as três da madrugada, e a fitava comodamente sentada à beira da cama. Sentiu-se incomodada, violada em sua intimidade, embora fossem , ela e a solidão, de tão íntimas, quase irmãs. A solidão sorriu como se lesse o seu pensamento. E seguiu fitando-a, muda.
Ela nada disse. Fez que não a vira. Levantou-se, pôs o CD de sempre, escovou os dentes, abriu a porta da varanda e a janela da cozinha, e retornou ao quarto para ler o jornal, como fazia todos os dias ao acordar. Mas não conseguiu. A solidão se deitara do lado esquerdo da cama e parecia imiscuir-se nos seus olhos, olhando-a tanto de dentro para de fora como de fora para dentro.
Dobrou o jornal. Fechou os olhos. Não entendia o que lhe estava acontecendo. Seus dias eram tranqüilos, a vida corria em paz e leve. O amor, ou que nome dessem àquilo que viviam, resplendia recém-consagrado, reafirmado, de corpo e alma vivido, pleno. Por que agora essa invasão impressentida?
Foi então que lembrou do ninho pendurado no pinheiro. Há quase um mês estava ali, parcialmente desfeito. E não caía. Pela primeira vez o haviam visto, à luz da lua cheia, na noite do amor, prestes a despencar, a desfazer-se. Mas não. Seguia, cai-não-cai, oscilando ao vento, numa ode à efemeridade da vida. À insustentável leveza do ser. Contrariando o tudo que é sólido desmancha no ar.
Abriu os olhos. A seu lado a solidão ressonava. Devia ter sido longa, a madrugada de vigília. Trocou o CD e o trompete de Chet derramou almost blue na penumbra azulada dos lençóis. Descobriu que aos poucos, a sensação passava. E como o relógio marcasse ainda cinco e meia, adormeceu. Lado-a-lado à solidão. Apascentada.
Márcia Maia
Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008
Folhetim
Sexta-feira. Carnaval. Meio-dia e meia. Ao telefone, ele diz que tudo foi lindo e deve ser guardado como um pequeno tesouro. Para sempre. No seu coração. Dele. Que não suportaria sofrer de novo. Ela ri. Disfarça o nó na garganta. Conversa mais um pouco. E desliga. Com um beijo. Foram tantos, pensa, olhando a fantasia sobre a cama. E não sobreviveram a um único carnaval.
A dor entornava-se sobre portas e janelas, móveis e tapetes, copos, panelas e xícaras. Queimava lâmpadas. Subia pelos pés e pernas, dorso e pescoço, até a raiz dos cabelos. Saltava e recomeçava. O desespero rondava cada esquina. E os comprimidos luziam encerrados no frasco vermelho de cristal. Inacessíveis.
Vovó, o que é ano-novo? perguntou Letícia, do alto dos seus três anos e meio, às quinze pra meia noite. É o aniversário do ano, respondi. Ela me olhou com aquela cara de nunca-vi-ano-fazer-aniversário. Eu ri. Veja, disse, quando você tinha dois anos e fez aniversário ficou com quantos anos? E ela, atentíssima: três. E no próximo aniversário, vai fazer quantos anos? Quatro!, disse ela rindo. Então, no ano-novo, o ano que tinha 2007 vai fazer 2008, entendeu? E ela: entendi. Agora, por que não tem vela no bolo?
Era quase sempre madrugada quando, trôpego, retornava adivinhando caminhos e estrelas. A bem da verdade, perdia-se, às vezes. Já batera em porta errada, dormira em banco de praça, acordara na calçada, abraçado ao cachorro do vizinho. Mas, quase sempre, chegava são e salvo. Subia as escadas, abria a porta sem ruído, tirava os sapatos, e entrava, pé ante pé, na casa adormecida. Em silêncio. Para não despertar a solidão.
Para Eduardo, meu amigo tão querido, por mim e, certamente, por Ela, com carinho:
mario bitt-monteiro
Ternura
Na praça deserta, eles andavam em círculos. Passavam pelos bancos, pelo parquinho transformado em lago pela chuva da madrugada, por trás da igrejinha branca de portas cerradas, pelo jambeiro e recomeçavam. Em silêncio. Cada um no seu ritmo. Quando recomeçou a chover, o menino tirou a jaqueta laranja e verde fluorescente que vestia, e colocou sobre a cabeça do velho. Que riu. E seguiram a caminhada rumo aos dez quilômetros de sempre. Em silêncio. Sob a chuva.
Saudade
O menino viajou de férias para Miami. Comprou duas camisas do Lakers, iguais. De volta, tornou à praça onde corriam, de manhã, ele e o Velho. Soube que partira. Desde então, troca sempre a camisa na metade exata da corrida. Por outra igual. Vez em quando, chora. Ninguém lhe entende o motivo. Exceto o Velho, sentado invisível no banco em frente à igreja. Que sorri a cada troca de camisa. E chora junto, a cada lágrima do menino.
Márcia Maia
Um beijo grande, meu amigo. Meu e das nossas Princesas.
Na fila, a multidão se espremia. Cansadas, as catracas rangiam quase se opondo à passagem das pessoas. Dentro fazia calor. Fora, chovia. Dentro, entremeado de estantes, livros em labirinto. Sonhos ofertados a preços módicos e aos montes. Gente passando, gente querendo, gente comprando. Não se lê nesse país, dizem os intelectuais. Não se lê nesse país, afirma a mídia. Não se lê nesse país? ela pensa. E o que dizer da multidão a se espremer ali, uma semana inteira e, ainda mais nessa tarde, em pleno feriado, numa feira cuja única atração são os livros?
Parecia uma corujinha. E era minha primavera. A mais bela primavera. A primeira. Era uma terça-feira. Vinte e três de setembro. Equinócio da primavera no hemisfério sul. No Recife. Acho que, um pouco, chovia. E a vida brotava. Brotou inteiro. Intenso. Do amor. O primeiro botão daquela primavera. A primeira. Desabrochou enquanto o dia amanhecia. Às cinco e meia. Felipe nascia. E em mim, a primeira e mais bela de todas as possíveis primaveras, se fazia.
Ouvia Blade Runner quando se sentia só. E quando acordava angustiada, desapontada com a vida. Também, quando estava feliz e o dia amanhecia excessivamente azul. Ou quando queria apenas se sentir aconchegada. A si. De tal modo que todos habituaram-se àquele som nas manhãs. Um dia, a música não tocou. Uma nuvem de silêncio pairou sobre a cidade. E todos souberam que havia partido.